Ministério da Saúde recebe denúncia de propina para financiar campanha de deputado

Encrencada com um rombo de R$ 260 milhões que levou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) a intervir na administração, a Fundação de Seguridade Social (Geap) se vê envolvida em mais um escândalo. Documentos obtidos com exclusividade pelo Correio denunciam que um suposto esquema de desvio de recursos ocorreu na gerência regional da operadora no Rio de Janeiro para financiar a campanha do deputado federal Hugo Leal (PSC-RJ).

O documento que originou as suspeitas está registrado em fax endereçado ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em 6 de junho de 2012, em plena campanha eleitoral. Consta no gabinete de Padilha um protocolo com o registro SIPAR nº 25000.097161/2012-81. Em um texto curto, alguém que se identifica como Carlos Gomes, servidor do Ministério da Saúde e médico credenciado na Geap como pessoa jurídica há mais de 10 anos, relata ao ministro que não tem recebido honorários da operadora.

Gomes conta que procurou outros colegas médicos donos de hospitais. Disseram a ele que teriam de pagar uma porcentagem do pagamento ao qual tinham direito ao gerente regional da Geap no Rio de Janeiro, Sérgio Jaimovick. A suposta propina seria destinada à campanha de Hugo Leal, e o ministro ainda foi alertado de que o gerente dizia ocupar o cargo por indicação do próprio Padilha.

Apesar do teor estarrecedor do relato, o Ministério da Saúde demorou nove meses e nove dias para encaminhar à Geap ofício em que pede que o suposto esquema de desvio de recursos seja investigado. Em 15 de março de 2013, o ofício nº 332/2013/CGESP/SAA/SE/MS é endereçado ao então diretor utivo interino da Geap, Joscelino Menezes, e pede a adoção de medidas cabíveis relativas à denúncia. Para piorar, onze dias após a chegada do fax, a ANS decretou a intervenção na operadora.

Justificativas
Procurada para detalhar que medidas tomou para investigar o caso, a Geap se limitou a informar por meio de nota que não se pronunciará sobre o assunto até a apuração dos fatos. Também por meio de nota, Hugo Leal disse apenas não ter nenhuma ingerência na Geap ou no Ministério da Saúde e que a denúncia se baseia em suposições sem fundamento, evidenciando má-fé e leviandade.

Em outra nota encaminhada à reportagem, o Ministério da Saúde diz que foi avisado pela Geap de que há um processo no conselho de ética da operadora para apurar a denúncia de irregularidades na gerência do órgão no Rio de Janeiro. A denúncia também teria sido feita simultaneamente, em junho de 2012, à direção da Geap, que é o órgão competente para apurar o caso.

O ministério também afirmou que, após substituir a sua representante no conselho deliberativo da Geap, enviou as denúncias recebidas para reforçar sua posição pelo andamento do processo de apuração. Por fim, o texto sublinha que “o ministro Alexandre Padilha não indicou o senhor Sérgio Jaimovick para o cargo de gerente regional da Geap no Rio de Janeiro”.

A reportagem também entrou em contato com Jaimovick. Ao contrário do que afirmou Padilha, ele reitera ter sido indicado para o cargo pelo ministro da Saúde. Além disso, admite conhecer o deputado Hugo Leal, mas ressalta não ter praticado nenhum ato ilícito durante a gestão. Um conselheiro e um ex-diretor da Geap ouvidos pelo jornal confirmaram que Jaimovick fazia questão de evidenciar sua indicação pelo titular da Saúde. “Ele começa o discurso dizendo isso”, afirma o conselheiro.

Histórico
Não é a primeira vez que dirigentes da Geap têm o nome envolvido em denúncias de desvio. Em 12 de agosto de 2012, o Correio publicou com exclusividade denúncia de que o então diretor utivo da entidade, Paulo Eduardo de Paiva Gomes da Silva, nomeado em 20 de julho de 2012, havia sido demitido da gerência regional da Paraíba, em 3 de outubro de 2011, por suspeitas de irregularidades. O processo nº 0100434/2011 lista 110 compras suspeitas feitas pela gerência regional de 2010 a 2011.

*Fonte: edição desta segunda-feira, 22 de abril, do Correio Braziliense

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